domingo, 24 de janeiro de 2010

Ingratidão

- A paciente está fazendo força.

E essa é a pior maneira de se começar um dia na maternidade, e foi assim que aquele dia começou. Ao contrário de quando ouvimos: ‘a paciente está com dor’, quando relatam que a paciente está fazendo força, não se tem tempo para lavar o rosto e bocejar. Na verdade, não se tem, ao menos, tempo para ficar irritado e desenvolver o fisiológico mau-humor matinal.

Pulei do segundo andar do beliche, calcei o tênis sem meia e fui correndo em direção ao centro obstétrico. Foi praticamente uma corrida de 100m rasos; sendo que para meu oponente, com apenas 38 semanas de idade, só faltava cruzar a linha de chegada; pelo menos era o que eu esperava. Na metade do caminho, ao passar pelo posto de enfermagem, notei certa tranqüilidade no modo que as enfermeiras conversavam; isso foi suficiente para eu deixar de correr e caminhar normalmente. Antes de chegar ao centro obstétrico, ainda tive tempo de observar um sujeito gordo, de camisa amarela e cabelo vermelho, assobiando da janela do hospital para as mulheres da rua. Sem fôlego e ainda sem o mau-humor matinal, não me preocupei em chamar a atenção do cidadão.

Ao ver a paciente, que não sabia se respirava ou chorava de tanta dor, fiz o que estava ao meu alcance para ajudar a aliviar aquele sofrimento gigantesco: auscultei os batimentos cardíacos fetais. É elementar que isso não causou alívio algum. Resolvi, então, proceder com o toque vaginal para avaliar se meu oponente tinha resolvido terminar sua corrida.

- Ainda falta muito doutor?

- Falta 1 hora no mínimo! – pensei.

- Falta só um pouquinho. – Falei, tentando passar um pouco de tranqüilidade para a vítima, digo, paciente.

Depois daquela 1 hora de espera assistindo gritos estridentes, respiração ‘cachorrinho’, arranhões e várias outras técnicas para o alívio de dor, finalmente levei a paciente para a mesa de parto e chamei o médico.

Após todo o procedimento cirúrgico, a enfermeira trás o pai da criança. Um senhor gordo, de camisa amarela e cabelo vermelho.

- A cara do pai. Parabenizou a enfermeira.

-Podemos colocar ele ai dentro de volta, se você quiser. –Disse, ou, pelo menos, pensei em dizer.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A idade vem chegando
e a memória...
se esvaindo.



Simplicidade=virtude?

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

(`)aVida

A vida é mais que puxar o ar
e sentir prazer em respirar.
É abrir um sorriso ligeiro
ao sentir, daquela pessoa, o cheiro.

A vida não é ouvir o coração
naquele ritmo regular sem emoção.
É sentir ele acelerar até a garganta
e aceitar humildemente que ela te encanta.

A vida é mais que fazer, com luz,
as pupilas se fecharem.
É abrir os olhos para o que seduz.

É ter no horizonte um destino,
ter ao seu lado um amigo
e uma alma de criança.



Com contribuição da mãe e do fernando...

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Como se deve amar!

Eu te amo, logo existo!
Quis dizer o pensador...
Não há razão para viver,
senão compreender o amor.

Amar é mais que querer,
é compreender todo olhar.
É arrancar sem querer,
dos olhos um cintilar.

O amor não busca vantagem,
não tem outra pretensão
senão a felicidade.

Quem ama é livre pra viver,
vive o amor em liberdade
e vê na vida um prazer.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Recomeço

Não existe nada como um amor
com quem se possa admirar o pôr-do-sol.
Pra quem se faça uma serenata sob o luar
e, sem hesitar, banhar-se ao ver o mar;
contar estrelas, fazer desejos, viajar

Quando termina um grande amor,
voltamos os olhos para o mundo.
O pôr-do-sol deixa de ser um pano de fundo.
O luar tem toda tua atenção;
as estrelas te acompanham, escuso.
E o mar... é só rebentação.



Nesse eu tive uma colaboração da minha corretora, analista e amiga: Elaine. iEHIHEIuiE

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Sem titulo, ainda.


Peguei as chaves e fui. Sem destino, sem razão, nem a tristeza e tampouco a felicidade me atormentaram nessa breve viagem inesperada. O impulso não foi espontâneo, tive que me algemar na idéia de segui-lo livremente. A cada retorno que eu via na avenida, sentia meus braços trepidarem levemente, mas o carro só acelerava. Sentia vergonha daquela imagem que refletia no painel me encarando, seu olhar pedia, saudosamente, a vontade e personalidade que possuí outrora, mas que se queimaram como gasolina.

Deixando todos os retornos no retrovisor, uma longa reta me esperava. Botei a mão para fora da janela, o vento era forte, inclinando minha mão para cima ele a levantava. A sensação era de que o vento se chocava com meu corpo com tamanha força que atravessava minha pele, músculos e vísceras, inoculando mais emoção em minha alma. O carro acelerava cada vez mais, não para fugir dos retornos, nem para ter mais vento, apenas tinha medo de entrar nos becos, vilas, ruelas.

Os braços antes contidos quando nos retornos, matinham-se inertes na reta. Cada placa de desvio que avistava, meu coração subia até minha boca, junto com o frio que dominava toda minha barriga. Fingia que não tinha visto as sinalizações, mas o olhar que vinha do painel me condenava. E sem qualquer preparação, premeditação ou aviso meus braços simplesmente puxaram o volante para a esquerda.

Apesar de proveitosa, a viagem ainda continuava sem destino e razão. Foi então que cheguei em meu destino, a linha férrea, enquanto vinha o trem, que encontrei uma razão. Ouvia gritos mandando inutilmente ‘Saia, olhe o trem’, mas meus braços e pernas pediam a liberdade de ficar. Eu já sentia o carro tremer e não escutava mais os gritos devido o barulho do trem que chegava, quando coloquei o braço para fora do carro mais uma vez. O vento ainda estava lá. O painel refletia uma imagem de olhos fechados. E foi no meu penúltimo ‘último suspiro’ que encontrei a chave das algemas. E senti que para usufruir da minha liberdade não precisava contrariar a ordem dos outros.


domingo, 12 de julho de 2009

Tributo à morte

Queria ter a Vida como amiga, mas ela é tão bela como traiçoeira. A Vida está perto no momento que se encontra nos olhos de alguém o Amor; no momento de diversão com os amigos, no momento que se faz um pedido para uma estrela cadente e no momento que se sente a brisa leve diluir o calor vindo da aurora.
É óbvio que a Amizade é solidificada nos momentos de Tristeza e necessidade. Quando no fundo do poço com uma colher empunhada para se aprofundar mais o leito sobre o qual se sustenta e, talvez, encontrar um pouco de água para se afogar; amigo é aquele que estende a mão. Onde está a Vida nessa hora? Quem afaga, abraça e cuida é a Morte. Ela é a única a acalentar e a apresentar uma solução para a Dor e o Sofrimento.
Sigo com a Morte do meu lado, ela é a luz que incide sobre minha cabeça, a luz do meu túnel vertical. Sei que quando me cansar de cavar, procurando a saída do meu claustro, ela estará ali, me esperando, e finalmente deitarei junto à ela.